MASAKATSU AGATSU KATSUHAYABI

 

“A verdadeira vitória é sobre nós mesmos aqui e agora”

 

Introdução


O Aikido é um caminho marcial de autoconhecimento e iluminação que se destaca das demais artes marciais, pois foi concebido por O'Sensei Morihei Ueshiba para que qualquer pessoa, independente do sexo, idade, classe social, ou condição física pudesse trilhá-lo. Isto, porém, não significa que este caminho seja fácil ou de simples compreensão, já que a sutileza e sofisticação desta arte demandam anos de dedicação sobre o Dojo e também o desenvolvimento intelectual e espiritual do praticante que deseje alcançar o entendimento e o domínio sobre seus conceitos e técnicas.
O Aikido também se diferencia das demais artes marciais por não admitir competições. O'Sensei acreditava que as competições levam o homem a um caminho de egoísmo e destruição, que não condizem com seu real objetivo ao criar este “do” como um dos caminhos que levam à Deus, promovendo a harmonia do indivíduo e da sociedade com as leis da Natureza. Pois, para O’Sensei, a única vitória que importava é a que se obtém sobre si mesmo, que leva ao autoconhecimento e o crescimento do indivíduo e, consequentemente, da sociedade.
Por isso, um dos conceitos mais importantes a que fui apresentando no Aikido, foi Masakatsu Agatsu Katsuhayabi, que significa “a verdadeira vitória é sobre nós mesmos aqui e agora” e hoje, quando me apresento como candidato ao grau de Shodan do Instituto Takemussu, percebo o quanto desafiar-se e perseverar são importantes para que qualquer praticante se desenvolva, sobretudo para os aikidoístas ocidentais que têm, naturalmente, maior dificuldade em compreender o espírito japonês sobre o qual esta arte foi desenvolvida e as diferenças entre pensamento, crenças e cultura ocidentais e orientais.
Hoje verifico o quanto o meu entendimento, mesmo que limitado, deste conceito tem importância para mim, não somente na evolução como aikidoísta, mas, sobretudo como ser humano, profissional, marido e, recentemente, como pai de família. Assim, nesta tese, apresento meu entendimento sobre a atitude de Masakatsu Agatsu Katsuhayabi e como busco aplicá-la a cada dia para alcançar as minhas vitórias mais importantes e verdadeiras, aquelas que me levam a sobrepor os desafios evoluindo técnica e espiritualmente, seja neste maravilhoso Budo criado por O’Sensei Morihei Ueshiba, seja nos demais aspectos da vida.


Masakatsu Agatsu Katsuhayabi


Este conceito, ou atitude, presente no Kojiki (Livro mais antigo sobre a história do Japão, considerado o livro sagrado do Xintoísmo) e em outras crônicas do Japão antigo, consolida as seguintes definições:
“Masakatsu é conformar seu coração à verdade e perseverar até o fim para atingir a vitória.
“Agatsu significa derrotar a natureza inferior e transcender o egoísmo.”
“Katsuhayabi é a capacidade de responder a qualquer eventualidade de maneira fluida, harmoniosa e desimpedida, sem hesitação ou oscilação.” (Impressões- Aikido, em https://impressione.wordpress.com/2013/11/22/massakatsu-agatsu-katsuhayabi, em acessado em 30/06/2015)
E pressupõe que devemos nos dedicar integralmente ao treino e desenvolvimento do corpo, da mente e do espírito através do sugyo, abandonando sentimentos de orgulho e vaidade e com sinceridade, buscar a unificação do ki, da mente e do corpo atingindo a conexão com o divino, ou o que O’Sensei chamava de Ponte Flutuante do Céu.
No livro “Ensinamentos Secretos do Aikido”, O’Sensei considera que este conceito é o “coração do Takemussu (pág. 60)”, o poder criativo, e que, confiando nesta atitude, podemos “nos unir com o Universo e seus mecanismos e desenvolver os reinos interior e exterior da existência” (pág. 18).
Portanto, durante o treino, na execução das técnicas, enquanto Uke, devemos atacar com sinceridade sem ceder aos reflexos egoístas do nosso ser básico, vencendo, portanto a vaidade sem tentar a todo custo impedir Nague. É preciso perceber a intenção e a conexão com Nague, harmonizando-se ao fluxo do ki que Nague provém e manter a intenção do ataque permitindo que este observe como manter a conexão e a fluidez do ki até o final da técnica. Como Nague, devemos manter a atitude de Agatsu, derrotando a natureza inferior do egoísmo e da vaidade ao executar os movimentos, abdicando da força bruta e buscando verdadeiramente a união da mente e do corpo e, assim, a conexão do seu ki com o do Uke.
 Iniciada a agressão, ou seja, o desequilíbrio do universo, Nague precisa conduzir a energia do Uke gerando uma força criativa que beneficiará a ambos e trará de volta o equilíbrio. Quando treinamos com intensidade na atitude de sugyo, é necessário também o relaxamento, mantendo a atitude de Masagatsu e de Agatsu. Desta forma, seremos capazes de responder às agressões e restaurar o equilíbrio do universo de maneira imediata, fluída e harmoniosa, conforme Katsuhayabi.


O Ser Básico, o nosso Uke interno


Há alguns anos atrás, participei de um workshop patrocinado pela empresa onde trabalho, baseado no livro "Introdução à Vida", de John Roger e Peter McWilliams, sobre autoconhecimento e decisões de carreira. Neste workshop fui apresentado ao "ser básico" que depois compreendi ser a força opositora mais significativa para obter a verdadeira vitória.
O ser básico é uma criança mimada, egoísta, medrosa que todos nós temos dentro de si. O ser básico não quer compartilhar nada, busca sempre o menor esforço e a procrastinação. Ele é acumulador, glutão, preguiçoso e muitas vezes, mentiroso, mas apesar de tantas qualidades ruins, ele só deseja ser feliz e se proteger e, por incrível que pareça, ele não é nosso inimigo! Na verdade, hoje entendo que ele é o nosso Uke interno, que precisa ter a energia conduzida para resolver os nossos conflitos e assim, crescer, pois o ser básico é essencialmente a versão mais primitiva de nós mesmos, a nossa essência em forma de instinto que vem à tona sempre que estamos sobre uma situação de risco ou stress.


Conclusão


Ao longo de quase 12 anos de prática pude observar que enquanto algumas pessoas logo no primeiro contato com o Aikido têm facilidade em assimilar os movimentos do tai sabaki e rolamentos. Já outras pessoas, ao contrário, têm muitas dificuldades em permanecer no kamae ou em executar alguns dos movimentos mais básicos. Obviamente que as pessoas são diferentes fisicamente, mas além do nível motor, da flexibilidade ou da força de cada um, o tempo demonstra que todos que persistem conseguem realizar, ao seu tempo, tais movimentos básicos. Porém, o que realmente diferencia um praticante eventual daquele realmente comprometido com o budo, é a sua capacidade de reconhecer que o verdadeiro desafio está em si próprio e não nos outros. Seja para vencer suas dificuldades pelo sugyo, seja para auto motivar-se, percebendo que há muito a aprender, seja para compreender que em determinados momentos do seu desenvolvimento, a paciência e a reflexão serão seus maiores aliados para evoluir neste caminho.
Meus Senseis Carlos Cirto e Paulo Cirto sempre repetiram que o aprendizado do Aikido é como uma escada em espiral irregular, ou seja, em alguns níveis tem-se a sensação de que apesar de galgarmos muito degraus, não chegamos ao andar de cima, até que de repente, parece que pisamos finalmente no degrau que faltava para alcançar o nível acima. A grande vitória neste caso é a paciência, a perseverança e a fé de que todo o seu esforço está realmente lhe fazendo melhor. É interessante verificar que isto se confirma ao longo dos anos, pois mesmo aqueles que têm grandes dificuldades iniciais conseguem aprender e se desenvolver, enquanto aqueles que tiveram muita facilidade no início eventualmente encontram dificuldades para executar alguma técnica ou desenvolver algum princípio, como funakogi ou mussubi.
É importante entender também que auto desafiar-se, na atitude de sugyo, não é necessariamente exaurir-se no treino repetindo a mesma coisa. Ora, repetindo indefinidamente um erro, não trará ganho. É preciso ao menos ter em mente o que está errado e o que deve ser feito para corrigir através da repetição. Além disso, o praticante poderá submeter seu corpo e a sua mente a um desgaste que, no primeiro caso o levará a se ausentar dos treinos e no segundo caso, a abandoná-los. É preciso estar relaxado. Como disse O’Sensei sobre o Takemussu Aiki no livro Ensinamentos secretos do Aikido:
“As coisas precisam de descanso. O descanso é a chave para a forma correta de viver.” (Ueshiba, Morihei – Ensinamentos Secretos do Aikido – pág.64)
No atual momento em que me encontro no caminho do Aikido, entendo que o praticante, especialmente o iniciante, não deve, portanto sucumbir aos seus instintos primitivos de autopreservação do ser básico, pois eles tendem a lhe apontar os caminhos mais fáceis: a fuga ou a violência.
Ao sentir dores musculares após os primeiros treinos, ao se deparar com a dificuldade para executar algum movimento ou para compreender algum princípio deste Do, aquele que busca a vitória sobre si mesmo precisa persistir, buscar o seu limite através do sugyo, aprofundando-se no estudo e no treino da arte, permitindo-se absorver naturalmente os ensinamentos que recebe no dojo. Porém, sem ser excessivamente rígidos com eles mesmos. Tratando o ser básico como inimigo, pode-se obter um resultado muito nocivo, que fatalmente o levará a um estado de infelicidade, pois este ser é parte muito importante de nós mesmos, o uke interno a cada um, que precisa da atitude de masakatsu agatsu e ter a energia conduzida para evoluir, mas estar satisfeito também.
Extrapolando estes conceitos para fora do dojo, quando passamos por uma difícil semana de trabalho, por exemplo, precisamos nos recompensar de alguma forma, seja nos divertindo com os amigos ou apreciando uma refeição ou assistindo a um filme, por exemplo. Assim como Nague e Uke,não podemos destruir o ser básico, temos que buscar uma "adaptação positiva", ou seja, indicá-lo o melhor caminho para evoluirmos, seguindo as leis da natureza (kanagara) mantendo o equilíbrio com a grande natureza (daishizen) para sermos a cada dia mais felizes.

Agradecimentos


Agradeço primeiramente a Deus, criador da grande natureza e de suas leis e O’sensei Morihei Ueshiba por criar o Aikido como um caminho de iluminação que nos permite viver em ressonância com estas leis.
Aos meus pais que sempre me deram amor e suporte incondicionais, por garantirem que nada me faltasse e por moldarem os alicerces do ser humano que sou hoje. “Seu” Fernando e “Dona” Gilseli, se alguém alcançou a verdadeira vitória foi vocês dois, como casal, como pais e como seres humanos. Obrigado pelo exemplo de vida e todo amor e carinho. Amo muito vocês!
Obrigado à minha maravilhosa esposa, por compreender a importância do Aikido na minha vida e entender a minha ausência para treinar e participar dos eventos, mas principalmente por me dar o maior de todos os presentes que algum dia poderia ganhar, a nossa filhinha Alice que ainda não tem nem um mês de nascida e já transformou a minha vida e já me ensina muito também. Amo muito vocês duas!
Muito obrigado ao Shihan Wagner Bull pela sua determinada busca pelo Takemussu Aiki e seu trabalho incessante por mais de 40 anos em prol do Aikido, por seu papel inigualável na difusão e manutenção do Aikido tradicional no Brasil, pela criação do Instituto Takemussu e por sua generosidade em dividir suas descobertas durante seu caminho com todos nós, seja ensinando no Dojo Central do Instituto Takemussu, nos seminários, bem como promovendo eventos que nos dão acesso aos grandes mestres do Japão e do mundo, ou ainda, publicando e traduzindo livros, que são hoje literatura indispensável para qualquer praticante de Aikido alfabetizado em português.
Aos meus Senseis Carlos e Paulo Cirto, minha eterna gratidão pelos anos de dedicação à arte, aos seus alunos e ao Seigan Dojo. Por manterem o alto padrão técnico do nosso dojo, pelos conselhos, correções e lições que me ajudaram tanto no meu desenvolvimento como aikidoísta como ser humano. Por apontarem o “caminho das pedras” do Aikido e na vida, por cada puxão de orelha, muito merecidos por sinal e pela paciência enorme que sempre tiveram comigo. É um grande privilégio ser aluno e amigo de vocês!
Ao Sensei Geraldo Garcia, por ter me recebido e me acompanhado nos primeiros passos dentro do Aikido. Um grande amigo e referência a quem tenho grande carinho e certamente laços para vida toda.
Aos Senseis Ney Tamotsu e Matsuda, que nos meus exames de kyu além de dividir conosco, através das aulas nos seminários, suas técnicas de fluidez e eficiência impressionantes. Obrigado por sempre contribuírem com observações precisas que muito ajudaram a nortear a evolução do meu Aikido.
Ao Sensei Alexandre Bull, que foi o examinador no meu primeiro exame, 5º kyu (faixa-amarela) e novamente me honra ao dirigir a banca examinadora do meu primeiro DAN de faixa-preta. Ainda guardo as observações feitas no meu primeiro exame há quase 11 anos e cada oportunidade que tive de participar de seminários com "Alê" Sensei foram experiências muito enriquecedoras. Obrigado por todo o trabalho que vem fazendo em apóio ao Sensei Wagner e, por conseqüência, ao Aikido nacional, mas principalmente por dividir sua técnica e seu carisma com todos nós.
Obrigado também aos Senseis e alunos do Dojo Central que sempre nos receberam de braços abertos nos Seminários em São Paulo: Miura, Edgar Bull, Satie, Claudia e todos os demais. Aos amigos do Yamato dojo e Kitoji dojo, em especial aos Senseis Mauro Salgueiro e Marco.
Um agradecimento especial aos amigos de treino Juliano e Washington, os primeiros faixas-pretas formados no Seigan Dojo. Eram faixas-verdes quando iniciei e abriram as portas para todos nós, sempre puxando o nível técnico do Seigan para cima e ao longo desses anos sempre contribuíram muito para que eu aprendesse e evoluísse como exemplos e motivadores. Muito obrigado pelas dicas, ensinamentos, puxões de orelha, shomen-utis, tsukis, chaves, projeções, hematomas e afins (risos), mas principalmente, pela orientação e auxílio na busca da conexão, do algo mais... Muito obrigado amigos, sem vocês, eu não chegaria até aqui!
Finalmente, mas em nada não menos importante, obrigado a toda a família Seigan, pela amizade e por toda a ajuda para chegar até aqui: Wagner Siqueira, Pedrinho Hansen, Renato, “Seu” João, Jéssica, Márcia, Vanessinha, Alejandra, Samir, Dr. Jorge Abunahman, Mauro “di menor”, Clarice, Áthila, Sandrão, Adelmo, Jimmy, Guilherme “Jiminho”, Otávio, Hugo, Lucas, Gláucio Murtha, Vinícius e Gabriela, Osvaldo, Henrique, César, Antônia e Hebert e outros tantos colegas que passaram pelo dojo e que, de alguma forma, contribuíram na minha caminhada.


Glossário



Aikido – Arte marcial criada o Morihei Ueshiba; caminho da harmonia do ki
Aikidoísta – Praticante de Aikido
Budo – Caminho do Guerreiro
Daishizen – A grande natureza
DAN – Graduação de faixa-preta
Dojo – Local onde se busca a iluminação espiritual; academia para a prática do Aikido.
Funakogi – Movimento de remada; exercício para desenvolver o ki
Kamae – Postura de guarda do Aikido
Kami – Divindade, espírito, Deus, Alma
Kanagara – Leis da Natureza
Ki – Energia vital
Masakatsu Agatsu Katsuhayabi – A verdadeira vitória, a vitória sobre nós mesmos, aqui e agora
Mussubi – Sinônimo de Aiki, juntar, colar
Nague – quem executa a técnica
Reigi – Etiqueta
Sabaki – Movimentação de esquiva
Sensei – Mestre
Shihan – mestre diretor e instrutor. Título normalmente obtido após o 5º DAN
Shodan – Faixa preta 1º DAN
Sugyo – treinamento austero
Uke – quem recebe a técnica
Tai – corpo
Takemussu – Última criação do Fundador; arte marcial de natureza divina


Bibliografia


O Caminho da sabedoria -Wagner José Bull - Editora Pensamento, 2003

Os Segredos do Aikido - John Stevens - Editora Pensamento, 1995

A Arte do Aikido - Kisshomaru Ueshiba – Editora Pensamento, 2006

Ensinamentos Secretos do Aikido - Morihei Ueshiba - Editora Cultrix, 2010

Introdução à Vida - John Roger e Peter McWilliams – Editora Record, 2004

Impressões – Aikido - https://impressione.wordpress.com/2013/11/22/massakatsu-agatsu-katsuhayabi, acessado em 30/06/20